Análise em Foco > Personalidade
É PRECISO IR ALÉM DOS ATAQUES À GLOBO E A CAETANO VELOSO
Quarta-Feira, 11 de Outubro de 2017

OPINIÃO DO ANÁLISE

Em um país assolado pela falta de padrões éticos consolidados, pela incidência de comportamentos quase primatas (como o dos molestadores sexuais do transporte coletivo)  e por um crescente apreço pelo politicamente incorreto, é compreensível que uma parte da sociedade tenha se revoltado com as polêmicas obras e performances artísticas (ou não, dependendo da ótica de cada um) apresentadas recentemente em Porto Alegre, São Paulo e Belo Horizonte. Atitude talvez até desejável, como elemento de contra-peso à cultura de libertinagem pela qual o Brasil é amplamente conhecido mundo afora.

Daí a concentrar toda a atenção pública em torno do assunto para empreender uma caçada aos autores das obras e manifestações em questão, parece um pouco exagerado e descabido. Mais descabido ainda é querer culpar a Rede Globo (como fizeram alguns dos grupos de mobilização social articulados em redes sociais) por ter levado ao ar opinião de Caetano Veloso a favor das exposições. Veículos de comunicação, para quem não sabe, existem para dar espaço igual a pensamentos diferentes. Este, aliás, é o princípio básico da democracia. Quem não concorda com ele, sentir-se-á mais feliz e realizado em uma ditadura, onde o pensamento de um único grupo é imposto verticalmente. A Globo, portanto, assim como qualquer outra emissora de TV ou veículo de qualquer outro meio de comunicação, tem a obrigação moral, ética e corporativa de mostrar os dois lados da moeda. Neste caso quem é contra e quem é a favor das polêmicas obras de arte ou não-arte, como você preferir.

Não se trata aqui de defender ou acusar A, B ou C, apenas de reconhecer o direito legítimo à liberdade de opinião em um país que pretende se considerar democrático. Qualquer constrangimento ou mesmo punição a eventuais excessos naquele ou em qualquer outro evento deve ocorrer nas esferas legais constituídas, entre as quais órgãos reguladores de conteúdos públicos ou até o próprio Judiciário, que existe justamente para mediar impasses de opiniões e argumentos. Senão vai ficar parecendo que as pessoas precisam dizer só o que agrada aos vigilantes da rede social

Relevância

Também impera observar, não obstante o direito legítimo das manifestações contrárias às exposições, que o Brasil tem hoje uma série de questões muitíssimo mais importantes para tratar e resolver. Enquanto as lideranças da mobilização social usam as redes sociais para demonizar a Globo, Caetano Veloso e todos os pontos de vista com os quais não concordam, Brasília segue se mobilizando para blindar a classe política, manter privilégios de agentes públicos e garantir o poder de determinados grupos. Num país tão carente de mais desenvolvimento para gerar mais riquezas para sua população, portanto, não parece razoável concentrar tanto esforço em uma pauta secundária.

Quem sabe faria mais sentido se tais movimentos estivessem preocupados em pressionar o Congresso para livrar-se dos parlamentares corruptos; os legisladores pela aprovação das 10 Medidas Contra a Corrupção;  o presidente da República pela adoção de políticas administrativas mais austeras; a administração pública pela adoção de políticas assistenciais mais eficientes; as instituições financeiras por mais  investimentos em inovação e tecnologia, e por aí vai. Demanda urgente e relevante é o que não falta no Brasil.

Transformação

O apelo mais popular e polêmico de questões ligadas a cultura, entretenimento e sexualidade, contudo, parece ser mais conveniente para quem busca projeção. Seria importante, no entanto, que os líderes destes movimentos decidissem se estão ao lado do Brasil ou de suas próprias pretensões – para a segunda opção já basta os políticos, ou parte deles, não é preciso mais candidatos ao fisiologismo.

Se, entretanto, o objetivo for alinhar-se ao Brasil e aos anseios da sociedade, será preciso bem mais envolvimento com causas bem mais nobres. Fazer memes oportunistas para viralizar na internet e obter notoriedade é pouco para quem pretende mudar o país. Memes virais, aliás, hoje qualquer um é capaz de fazer, de forma que a contribuição dos movimentos organizados precisa ir bem além disso para atingir o objetivo da transformação.

Pauta

O policiamento ideológico das questões culturais e/ou comportamentais deve ser atribuição de movimentos religiosos, entidades de classe, associações ou qualquer outra forma de organização social coletiva. Quem quiser contribuir para mudar o Brasil na essência, vai ter que buscar causas bem mais nobres para defender. E então, Kim Kataguiri, que tal rever a pauta do MBL? E o NasRuas, será que propõe algo melhor que defender Jair Bolsonaro?

Se permanecermos preocupados apenas com Lula, Caetano e Globo, daqui a pouco vai parecer que o Brasil é realmente o país das causas menos importantes. Façamos, pois, maior esforço para dar mais visibilidade às causas mais relevantes, decisivas para dar ao futuro do país uma realidade melhor do que a vivida por ele no presente. Pensemos todos nisso, e rápido, antes que seja tarde demais.




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