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É PRECISO COMBATER O PRECONCEITO, MAS DE FORMA EFICIENTE
Sexta-Feira, 27 de Outubro de 2017

EDITORIAL  AeF

Como já dizia o filósofo do boteco, uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Uma coisa é o preconceito, outra completamente diferente a forma de combatê-lo. Em relação aos debates sobre diversidade de gênero, que vêm dominando a pauta das discussões no momento, tem-se uma situação que gera polêmicas cujos efeitos e resultados podem não ser aqueles desejados e esperados por quem luta pela igualdade de direitos e pelo fim do preconceito.

Vejamos o episódio desta semana em Blumenau, em que uma espécie de batalha campal instalou-se na Câmara de Vereadores após uma moção de repúdio aprovada por maioria pelos parlamentares blumenauenses. A iniciativa dirigia-se à organização de evento audiovisual em escola pública do município, levando conteúdo sobre diversidade de gênero, raça e religião. As reações por parte de quem condenou a ação do Legislativo tiveram início e, em reação a elas, reagiram também os que apoiaram a decisão dos vereadores.  No Plenário da Casa, dois grupos frente a frente, cada um com seus argumentos intransigíveis: os que insistem na introdução do tema nas escolas e os que são radicalmente contra. Entre eles um muro invisível, que jamais será derrubado neste clima de enfrentamento.

O preconceito é, indiscutivelmente, uma das piores chagas do século 21. Com o advento das tecnologias de comunicação em tempo real, da hiper-conectividade  e das redes sociais, tornou-se uma espécie de arma com a qual as pessoas atiram na dignidade e nos sentimentos umas das outras. Deflagrou-se uma espécie de guerra na qual vence quem aceitar menos a opinião e as preferências do outro, para fazer prevalecer as suas próprias. Uma realidade que, definitivamente, não combina com uma sociedade que se pressupõe evoluída, formada por indivíduos pressupostamente complexos, de inteligência notável. Pois não há absolutamente nada de evoluído, de complexo e muito menos de inteligente em ser preconceituoso. Muito pelo contrário, é absolutamente primitivo, selvagem e simplista.

Matemática

Ocorre que a tentativa de combater o preconceito com mais preconceito certamente será frustrada. No caso específico da introdução do tema diversidade de gênero nas escolas, já ficou evidente que a ideia não é bem aceita por parte significativa da sociedade, afinal gera-se sempre uma polêmica inacabável que, definitivamente, não vai resolver o problema. Vai produzir no máximo episódios como o da batalha campal de argumentos na Câmara de Blumenau nesta semana, algo bem distante daquilo que efetivamente pode levar à construção de uma sociedade mais tolerante e menos preconceituosa, como quer a parte sensata da população.

Não seria o caso, portanto, de se aceitar esta opinião contrária e refletir sobre novos formatos e ações de combate ao preconceito de gênero? Se um caminho não está levando ao lugar desejado, não seria melhor procurar outro? Sem aceitar esta linha de pensamento, os grupos que estão lutando pela aceitação da diversidade podem estar usando a mesma arma daqueles a quem enfrentam: o preconceito. Afinal, se você não aceita que o outro pense diferente de você, estará estabelecendo um pré-conceito que o impede de aceitar esta diferença. Dá exatamente no mesmo, e a luta contra o preconceito acaba ficando inviável, afinal ambas as partes estarão recorrendo ao mesmo artifício. Não há como a soma de dois preconceitos ser igual a zero preconceito. Questão de matemática pura.

Tomemos como exemplo a luta contra o preconceito racial, que há mais de um século vem sendo travada com resultados bastante consistentes, embora muitas batalhas ainda tenham de ser vencidas. Tanto grupos organizados quanto indivíduos isoladamente, obtiveram espaços inimagináveis para a população negra há 100 anos, no Brasil e no mundo. A nação mais rica do Planeta elegeu um presidente negro para oitos anos de mandato, e a cada dia que passa ele vai deixando mais saudade, pelas atitudes de seu sucessor. O Brasil reconheceu que seu maior escritor foi um negro – Machado de Assis – e o rei do futebol também. A África fez de Nelson Mandela uma das figuras mais cultuadas da história. Isso para ficar só no exemplo das grandes celebridades, porque o mundo hoje está cheio de negros muitíssimo e merecidamente bem sucedidos e acomodados no seio da sociedade, a despeito de todo o preconceito racial que ainda domina a cabeça de muita gente.  Nas artes, no esporte, na mobilização social, nos movimentos religiosos e até na Justiça, não faltam canais de manifestação e defesa da  dignidade racial e étnica, para qualquer raça, para qualquer etnia.

Nas escolas, contudo, nunca se viu nenhuma iniciativa mais ousada de inserção do tema racial, como se vem tentando fazer com a questão da diversidade de gênero, assunto de mesma relevância e importância. Talvez até já se tenha tentado, mas sem sucesso, possivelmente pelos mesmos motivos que agora estão impedindo a introdução do novo tema. Esta dificuldade, contudo, não impediu a população negra de se libertar das correntes, deixar a senzala e conquistar o mundo, ou parte dele pelo menos. Mesma coisa as mulheres. Elas jamais precisaram de uma disciplina sobre feminismo para deixar os homens e o fogão para trás. Conseguiram-no apenas e tão somente por merecimento, por mostrar que são melhores em muitas coisas.

Alternativa

Por isso talvez fosse a hora de buscar novas frentes de combate ao preconceito de gênero. Atuar na cabeça dos pais, geralmente poluída por uma visão preconceituosa do assunto, pode dar mais resultado do que insistir em moldar a mente dos filhos, que não têm nem conceito ainda, quanto mais preconceito.

Também não se pode negar à Câmara de Vereadores o direito de se posicionar sobre o tema. Afinal, aquela é a Casa do Povo para o bem e para o mal. Os vereadores que aprovaram a polêmica moção de repúdio foram eleitos por uma parcela significativa da população, assim como aqueles que votaram contra o dispositivo. Se os parlamentares favoráveis à iniciativa o fizeram encarando seus eleitores, é porque representam o pensamento de uma parte da sociedade. Merecem respeito nesta condição, da mesma forma que também merecem ser respeitados os que foram contrários, pois representam outra parte igualmente legítima da sociedade. Foi o típico encaminhamento que até pode ser questionável, mas é adsolutamente legítimo.

As reações ocorridas e materializadas na batalha do Plenário nesta quinta-feira, da mesma forma, são absolutamente normais e bem vindas, inclusive. São o supra-sumo do exercício democrático, o ponto culminante de uma sociedade livre para discutir abertamente seus temas mais relevantes e sensíveis.

Reforço

Só não parece ser o melhor caminho para combater o preconceito, justamente por servir apenas para reforçar dois preconceitos diferentes. A forma como o assunto está sendo encaminhado, um tanto à força, como se a sociedade fosse obrigada a aceitar a introdução do tema na escola, visivelmente não está funcionando. Vai reforçar preconceitos em vez de diluí-los.

Pensemos todos nisso, quem sabe ajude a construir uma sociedade melhor e menos preconceituosa. É o que deseja todo cidadão de bem, seguramente. 




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