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UMA GRANDE FESTA E UM GRANDE NEGÓCIO
Quinta-Feira, 16 de Novembro de 2017

Quando se diz que o poder público deveria ser gerido como uma empresa para obter melhores resultados, muita gente torce o nariz. Principalmente quem ainda acredita nas propriedades de um Estado gigante, onipresente e tutelador como fonte de benefícios para a sociedade. A despeito de todos os males que os modelos concentradores de organização estatal têm produzido no país ao longo das décadas, a crença em um governo pai de todas as bênçãos persiste em fatia significativa da população.

Os números, contudo, mostram que o paradigma privado de gestão, quando aplicado corretamente a esferas da administração pública, produz resultados bem mais consistentes do que o paradigma público. Nesta quinta-feira, por exemplo, o prefeito Napoleão Bernardes e o presidente do Parque Vila Germânica, Ricardo Stodieck, apresentaram os números da 34ª edição da Oktoberfest de Blumenau, maior evento de lazer do estado e um dos maiores do país – promovido integralmente pelo poder público, ao contrário de alguns dos principais concorrentes.

No balanço, um surpreendente avanço de 33% no superávit do evento, que consumiu R$ 9,1 milhões para ser realizado e gerou R$ 13,4 milhões em receitas com ingressos, comissões sobre venda, permissões de uso e patrocínios – outros R$ 450 mil foram arrecadados através de convênio com o governo do estado. Sobre este superávit total de R$ 4,2 milhões, do qual ainda serão descontados despesas administrativas como impostos e depreciação de patrimônio, por exemplo, a Vila Germânica consolidou uma margem operacional líquida de quase 32%. Ou seja, cerca de R$ 1,3 milhão foi o que a Oktoberfest efetivamente deu de lucro. Em relação a 2012, quando teve início a atual gestão do Parque Vila Germânica, a margem operacional da festa avançou seis vezes, indo de 5,4% para 31,6%.

– Foi um resultado de fazer inveja a empresas do setor privado, mostrando que o poder público sabe fazer gestão de qualidade quando busca este objetivo – destacou o prefeito.

Valor agregado

De fato é um resultado bastante satisfatório. Muitas empresas às vezes colhem resultados ruins por pura má gestão, sucumbindo administrativamente por não equacionar corretamente variáveis como despesa, receita, logística e material humano, entre outras. E não são raros os casos.

Quando se olha para a contabilidade da Oktoberfest, partindo do pressuposto de que são dados confiáveis, percebe-se que as receitas aumentaram numa proporção quase três vezes maior do que as despesas entre 2012 e 2017. Enquanto o gasto com a realização do evento subiu 34%, partindo de R$ 6,8 milhões para R$ 9,1 milhões neste período, o caixa obtido com ele foi de R$ 7,2 milhões a R$ 13,4 milhões, dilatando obesos 86%. Este é o primeiro item em qualquer cartilha de governança corporativa saudável: evoluir mais na receita do que nas despesa. Nesse quesito, portanto, a organização da Oktoberfest mereceu nota 10 com estrelinha.

Outro aspecto decisivo na saúde de qualquer organismo corporativo é o agregamento de valor. Nenhum agente de mercado hoje consegue avançar a níveis sólidos só com aumento de produção. Na era da Economia Criativa e da Indústria 4.0, é preciso agregar cada vez mais valor ao produto. Sem isso, não há aumento de produção que dê conta de gradar aos acionistas como eles desejam ser agradados. Elemento que na lógica da administração pública faz o mesmo sentido.

Voltando ao caso da Oktoberfest, o valor arrecadado com as cotas de patrocínio (valores que as empresas pagam para expor sua marca e/ou explorar seus serviços no evento) teve um salto vertiginoso de 118% em 2017, gerando R$ 1,6 milhão para o caixa da Vila Germânica – em 2016 foram R$ 740 mil. Um ganho de margem que não envolveu a venda de mais ingressos, a contratação de mais trabalhadores ou o aumento da planta industrial, apenas e tão somente a exploração de maior valor agregado ao produto. Mais um resultado de deixar caído o queixo de qualquer CEO da era digital.

– O patrocínio é uma fonte de receita de grande potencial para a festa, e uma grande oportunidade para o patrocinador, que agrega valor a sua marca vinculando ela ao evento – observou o presidente do Parque Vila Germânica, que pretende continuar avançando na exploração desta modalidade de faturamento.

Hibridismo corporativo

Por isso deve-se avaliar em profundidade os paradigmas de gestão que o país adota hoje, tanto na iniciativa privada quanto na administração pública. Ambos estão carentes de bons exemplos de governança respónsável e eficiente, voltada para o resultado efetivo e de longo prazo  aqui mesmo, em Blumenau, há empresas tradicionais sucumbindo à má gestão e dando adeus a um legado de pioneirismo do qual a cidade sempre se orgulhou. Se é possível criar modelos híbridos, portanto, aproveitando o que há de melhor em cada sistema administrativo e produzindo resultados melhores com isso (como tem feito a Vila Germânica com a Oktoberfest), não há porque não fazê-lo.

Mas aí você deve estar se perguntando: o que será feito com os mais de R$ 1 milhão que a Vila Germânica contabilizou de margem líquida com a Oktoberfest deste ano? 

De acordo com prefeito Napoleão Bernardes, os recursos serão investidos na realização de outros eventos promovidos pela Vila Germânica, alguns com acesso livre à população, como o Magia de Natal, o Réveillon, a Cãominhada e a Vila de Páscoa, entre outros. O parque Ramiro Ruediger, anexo à Vila Germânica e principal equipamento de lazer ao ar livre do município, também vai ser beneficiado, recendo R$ 120 mil para investir em melhorias como reforma da pista de skate,  instalação de uma slackline (esporte de equilíbrio sobre fita elástica) e colocação de novos bancos.

– É uma forma de oferecer lazer gratuito e de qualidade sem precisar de recursos públicos, cuja destinação tem uma série de outras prioridades – observou Napoleão.

Prioridades

Neste aspecto o chefe do Executivo blumenauense também tem razão. Em um país (e uma cidade, portanto) onde a educação, a saúde e a segurança pública ainda estão muito aquém do desejado e seguem como prioridade absoluta, fica muito difícil para o poder público tirar dinheiro do bolso para garantir o lazer que o cidadão merece. Podendo fazer isso com a realização de eventos e iniciativas auto-sustentáveis, portanto, dará um grande drible da dificuldade.

Os recursos obtidos com o azul financeiro da Oktoberfest também serão investidos na compra de seis imóveis localizados em áreas contíguas à Vila Germânica, já utilizados pela autarquia através de aluguel. As desapropriações já foram assinadas pelo prefeito e agora precisam ser aprovadas pela Câmara de Vereadores.

Desafio

Chegar ao topo, contudo, é muito mais fácil do que permanecer lá, como se sabe. Então, ao mesmo tempo em que a Vila Germânica foi muito bem sucedida até agora na construção destes resultados, precisará ser melhor ainda para mantê-los e continuar evoluindo. Neste contexto, agregar ainda mais valor ao evento vai ser o grande desafio, já que o aumento de escala, neste caso, é pouco viável – tarefa na qual a tecnologia, que já vem sendo grande aliada da Oktoberfest, terá papel ainda mais relevante.

Mas os benefícios e os impactos econômicos da segunda maior festa da tradição germânica no mundo ocidental justificam qualquer investimento que se faça em seu aprimoramento. Em publicação recente, o Análise em Foco destacou a extensão deste impacto, lembrado pelo prefeito nesta quinta-feira, durante a apresentação dos resultados da Oktoberfest:

– As pesquisas de satisfação feitas junto ao público da Oktoberfest mostram índices de satisfação superiores a 98% e constatam o desejo de quem visita a festa de voltar e conhecer outra regiões do estado.

Segurança e qualidade de vida

Mais uma vez ele acertou na ponderação. Não resta dúvida nenhuma sobre os impactos altamente positivos do maior evento do estado para a economia e a imagem de Santa Catarina. Principalmente em uma época em que as pessoas estão com cada vez mais medo de ir para os grandes centros urbanos do país, assolados por índices incontroláveis de violência e insegurança pública. Neste cenário, quando o sujeito descobre que pode fazer turismo em cidades como Blumenau e estados como Santa Catarina, que ainda ostentam níveis de segurança e qualidade de vida comparáveis aos do primeiro mundo, sente-se num verdadeiro oásis no deserto.

Meio ambiente

Algumas questões de natureza ambiental ligadas à realização da festa, no entanto, demandam atenção extra – como o não reaproveitamento dos copos descartáveis utilizados no evento, por exemplo. Uma questão que não depende só do poder público ou da Vila Germânica, pois envolve desenvolvimento e/ou obtenção de tecnologias ainda indisponíveis por aqui, mas que precisa entrar no radar das preocupações antes que comece a tirar parte do brilho da festa que hoje é orgulho não só de blumenauenses e catarinenses, mas também dos brasileiros, pela dimensão que tomou.



A CIDADE DO ESPETÁCULO ARREBATADOR E DA VIOLÊNCIA ASSUSTADORA
Terça-Feira, 13 de Fevereiro de 2018

O maior espetáculo da terra, para alguns, é o desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro, na famosa e célebre avenida Marquês de Sapucaí. Quem assiste ao vivo dificilmente deixa de concordar com a definição, pelo impacto arrebatador que o evento provoca no público. A mistura mágica de música, dança, poesia, interpretação, beleza, alegria história e crítica social que os cariocas são capazes de produzir com seus temas e alegorias realmente enchem os olhos como nenhuma outra atração de nenhum outro lugar do mundo – tudo isso catalisado pela atmosfera única e sedutora da Cidade Maravilhosa, é claro.

Os desfiles da Sapucaí e sua plenitude artística acabam sendo também palco de manifestações políticas dissimuladas e explícitas ao mesmo tempo. A escola de samba Paraíso do Tuiuti, por exemplo, este ano levou para a avenida um presidente Michel Temer caracterizado de vampiro, recorrendo a artifício que poderia ser tanto uma sátira dos muitos memes já compartilhados em rede social sobre a aparência supostamente dracoleana do peemedebista quanto uma alusão ao chefe de estado que, de um lado, imprime certa governabilidade ao país e com isso vai tirando-o da crise, e, do outro, recorre aos velhos e condenáveis dispositivos da política brasileira na hora de negociar essa governabilidade.

Experiência

O professor de História Leonardo Moraes viveu seus momentos de fama ao interpretar o vampiro-presidente da Marquês de Sapucaí. De acordo com ele, além da manifestação fervorosa do público, teria recebido muitos telefonemas saudando-o pelo personagem e pela interpretação.

– A gente imaginava que haveria um certo burburinho, mas não nessa proporção. Na dispersão, muitos jornalistas estrangeiros estavam interessados. Isso me surpreendeu – admite ele.

Por isso o espetáculo carioca acaba sendo ainda uma vitrine da maturidade democrática do Brasil, afinal, em paragens não muito distantes, assim como em outras mais longínquas, seria inimaginável a realização de um evento oficial trazendo alegoria de tamanha acidez contra a principal autoridade do país. É o retrato quase perfeito de um Brasil que, a despeito de tantos anacronismos e problemas para resolver, sabe fazer autocrítica e tem liberdade para discutir a relação abertamente.

Contradição

Infelizmente, contudo, o espetáculo da Marquês de Sapucaí é também o retrato contraditório de uma cidade que sabe produzir arte e crítica social da melhor qualidade mas não consegue resolver seus problemas sociais mais graves, principalmente aqueles ligados à saúde e à segurança pública.

Enquanto as escolas de samba levam para a avenida o que o Brasil tem de melhor em termos de criatividade associada à capacidade de trabalho e organização, o quadro social que as envolve traz à tona a face mais obscura de uma nação que ainda deixa as favelas crescerem como um câncer incurável, o crime tomar conta das ruas e as pessoas morrerem na porta do hospital por falta de atendimento. O Rio de Janeiro e seu deslumbrante espetáculo são a imagem mais eloquente deste país de contradições tão visíveis quanto comprometedoras, que ora levam-no para o céu ora levam-no para o inferno.

Torcida

O movimento de turistas que este ano, novamente, trocaram o carnaval carioca pelo paulistano talvez se explique, em parte, por estas fortes contradições que marcam o Rio de Janeiro. De um lado a cidade de geografia, povo e cultura maravilhosos, do outro o município da insegurança pública, da violência e do medo, que cada vez mais afastam turistas e cariocas, unidos na busca por outros destinos tanto para morar quanto para viajar – Blumenau e Santa Catarina já recebem muitos deles, a propósito.

Por isso o Brasil torce para que o Rio consiga resolver seus problemas e reduza a violência, voltando a ser uma das cidades mais visitadas do mundo. O turista estrangeiro que vem para o país impulsionado pela beleza e pela atmosfera da Cidade Maravilhosa deixa suas divisas aqui e, assim, beneficia toda a nação, direta e/ou indiretamente, ajudando a gerar mais riquezas e oportunidades. Afinal, imaginar o Brasil sem o Rio de Janeiro é como imaginar os EUA sem Nova York ou a França sem Paris. Seguramente receberiam muito menos turistas sem ambas, ou se fossem cidades inseguras.

Editado pelo AeF, com informações do Portal da Band



BLUMENAU GANHA UMA NOVA VELHA PONTE, QUE DEPENDERÁ DE CUIDADOS ADICIONAIS
Quarta-Feira, 07 de Fevereiro de 2018

Teve inicio nesta segunda-feira o trabalho de pintura da ponte Engenheiro Antônio Vitorino Ávila Filho, mais conhecida pelos blumenauenses como Ponte dos Arcos, em função da forma arquitetônica e estrutural que a caracteriza – há cinco décadas a estrutura era parte de uma ferrovia, sendo reformada posteriormente para o fluxo de automóveis.  Esta é a segunda etapa do processo de revitalização pelo qual passa um dos principais cartões postais da cidade, cujas más condições de conservação, há tempo, causavam impressão ruim a quem chegava a Blumenau pela entrada Leste do município.

A revitalização teve início com a limpeza da estrutura, feita em janeiro, e agora a pintura deve ser concluída em cerca de 30 dias. Logo após inicia a modernização do sistema de iluminação. Durante os trabalhos, a princípio, o tráfego no local deverá continuar normal, mas, se houver necessidade de interdição, a autoridade de trânsito avisará com antecedência.

Prevenção

A revitalização da Ponte dos Arcos é uma parceria da Prefeitura de Blumenau com o Rotary Club Blumenau-Açú e as empresas ACN Química e Condor, que doaram a tinta. Por isso estão envolvidos na causa o mérito da iniciativa e o mérito da parceria, pois sempre que o poder público e a iniciativa privada unem esforços pelo bem comum quem sai ganhando é o cidadão, obtendo melhor custo-benefício na prestação de serviços – vale observar que, além de deixar a cidade mais bonita para os visitantes, a revitalização de equipamentos urbanos também provoca uma sensação mais agradável para quem vive no município, interferindo diretamente na qualidade de vida da população.

Mas seria recomendável que fossem pensadas também em mais formas de prevenir a degradação e, principalmente, a depredação de bens públicos importantes como a Ponte dos Arcos, que, além de cartão postal da cidade, é importante equipamento viário. Melhorar a iluminação vai ajudar bastante, mas, para evitar maiores riscos de novas pichações, por exemplo, a instalação de câmeras de monitoramento seria bastante oportuna. Teria custo sensível, mas possivelmente produziria benefício satisfatório. Afinal, se já era desconfortável ver uma velha ponte pichada todos os dias, ver uma ponte com cara de nova mas já cheia de rabiscos será mais desconfortável ainda,  deixando a sensação de dinheiro jogado fora e, pior, de falta de controle das autoridades sobre o patrimônio público.

Manutenção

O monitoramento eletrônico é apenas uma ideia, mas existe outras formas de produzir o mesmo efeito, então cabe às autoridades responsáveis pensar na melhor maneira de zelar pelo bem comum. Uma nova parceria entre a administração municipal e a iniciativa privada para este fim seria muito bem vinda. Certamente diluiria custos, agregaria valor à imagem de eventuais parceiros e deixaria aliviados os blumenauenses, que se perguntarão por quanto tempo aquele belo patrimônio urbanístico, revitalizado, ficará livre da ação dos vândalos.

Que os esforços em viabilizar esta importante obra sejam reconhecidos, portanto, pois trazem um benefício visível para o município, mas que estratégias complementares de manutenção sejam igualmente elaboradas, para dar vida útil mais longa ao investimento e ao retorno que ele vai dar para a sociedade. Do contrário, aquilo que hoje é um grande mérito amanhã pode se transformar num enorme fardo.   



PORTO BELO REVERTE DEGRADAÇÃO INVESTINDO EM SUSTENTABILIDADE E CONSCIÊNCIA
Quinta-Feira, 01 de Fevereiro de 2018

A região de Porto Belo é uma das mais bonitas do litoral catarinense. Localizada na área metropolitana do município de Itajaí, tem uma fauna composta por tartarugas, cardumes de diferentes peixes e aves comuns da Mata Atlântica, além de praias de água limpa e calma para tomar banho sem medo nem receio. Toda esta beleza exuberante, contudo, também sofre com a ameaça da degradação humana, como geralmente acontece com paraísos naturais ocupados pelo homem.

De olho na preservação, o empreendimento Ilha de Porto Belo iniciou nesta temporada a campanha Bitucas não são sementes. A ação faz parte de um conjunto de iniciativas cujo objetivo é reduzir o microlixo, como são chamados os resíduos sólidos não biodegradáveis que se dispersam pelo meio ambiente com facilidade. De acordo com dados oficiais, foram recolhidas mais de 2,6 mil unidades deste tipo de material nas primeiras três semanas do ano na ilha de Porto Belo.

A ingestão dos pequenos detritos sintéticos seria hoje a segunda maior causa da morte de animais marinhos, atrás apenas da pesca comercial. A campanha reforça que "bitucas" (como são chamadas as xepas de cigarro), além de prejudicar o meio ambiente ainda liberam toxinas no solo. Idealizado em três idiomas (português, espanhol e inglês), o material está exposto nas cadeiras de praia, mesas e placas espalhadas pela ilha. Também foram instaladas bituqueiras, para recolhimento e descarte adequado dos resíduos de cigarro.

Para incentivar o envolvimento dos veranistas com a causa, uma equipe atua junto ao público em busca de conscientização. Garçons, monitores e atendentes também passaram por treinamento para comunicar aos visitantes a importância do descarte correto deste tipo de resíduo.

Engajamento

22 anos, a Ilha João da Cunha – como a ilha de Porto Belo é oficialmente batizada – era uma área degradada. Viveu historicamente um período de pesca predatória de baleias e ao longo dos anos, até o início dos anos 1990, acabou virando espaço para acampamentos improvisados onde era deixado lixo e havia muitas queimadas. Hoje, com as ações do empreendimento que explora atividades turísticas e comerciais no local, por onde passam 100 mil pessoas durante a temporada de Verão, a área estaria atendendo a orientação do Ministério Público Estadual e obedecendo a princípios de sustentabilidade.

A campanha Bitucas não são sementes é mais um passo em busca da conscientização dos visitantes e da comunidade do entorno sobre a importância de cuidar do meio ambiente. Desde 2007 os bares e restaurantes instalados na ilha de Porto Belo não vendem cigarros. Já a venda de bebidas em vidro foi extinta ainda mais cedo, em 2002. Os canudos plásticos foram abolidos em 2016. Mesma época em que houve um acordo com os barcos de entretenimento que transportam passageiros para evitar o uso de balões. 

– São ações do cotidiano que muitas vezes não nos damos conta. O uso de canudos, por exemplo. Além dele em si, o plástico que o separa individualmente geralmente solta uma ponta imperceptível aos olhos, mas que prejudicam em muito a fauna marinha ressalta o administrador do Ilha de Porto Belo, Alexandre Stodieck

Segundo o geógrafo Jules Soto, responsável pelo Museu Oceanográfico da Univali, a região do litoral Centro-Norte de Santa Catarina é reduto de tartarugas-verde. Elas nascem nas ilhas oceânicas e migram para o Sul do Brasil, até próximo a São Paulo. Aqui ela tem uma área de pastagem, já que até os dois anos são somente herbívoras, alimentando-se de algas. Do território catarinense elas vão embora e nunca mais retornam, vão se dispersar para o mundo.

– A Ilha de Porto Belo é uma área de pastagem importantíssima. São pouquíssimos lugares no mundo como aqui. E o microlixo afeta diretamente estes animais. Recebemos pelo menos quatro por semana, já mortos, devido à sujeira – lamenta Soto, destacando que tartarugas-verde, albatrozes e petréis são os mais afetados.

Reciclagem

Toda essa preocupação já era hábito no dia a dia da ilha de Porto Belo, mas ganhou força com a visita do capitão Charles Moore, em 2015. O oceanógrafo norte-americano é o descobridor da ilha de lixo amontoado de material descartável boiando sobre a água – do Oceano Pacífico e virou estudioso de metodologias que possam controlar o problema em seu estágio inicial.  Moore procura identificar maneiras para que se possa conter esse acúmulo progressivo de lixo, reduzindo os impactos causados às espécies marinhas e aos oceanos.

– As pessoas devem parar de poluir os oceanos com plásticos ou qualquer outra coisa, temos que instaurar uma cultura de reciclagem e desperdício zero – disse o pesquisador em sua visita.

Gerações

Em todo este contexto no qual a preocupação com hábitos sustentáveis de consumo é cada vez mais decisiva para a salvação do planeta, chama a atenção, negativamente, como parte das novas gerações não está fazendo sua parte. Bem perto de Porto Belo, na Praia Central de Balneário Camboriú  e na vizinha Praia Brava (também conhecida como Praia dos Amores), separadas por uma montanha, há também uma separação visível de comportamento, que simboliza de forma assustadoramente eloquente esta constatação.

Enquanto os frequentadores de Balneário Camboriú, entre os quais a maioria pertence a uma faixa etária mais elevada, costumam deixar a praia relativamente limpa depois de usá-la, a juventude antenada que predomina na Praia Brava geralmente deixa um verdadeiro lixão para trás. Quem for a ambas as praias num mesmo dia da temporada de Verão poderá fazer esta constatação sem nenhuma dificuldade, tamanha a diferença de comportamento dos dois públicos.

É nesta diferença, mais do que em seu resultado, que reside a preocupação, afinal, são justamente as novas gerações que deveriam estar mais envolvidas com a conservação ambiental e a sustentabilidade. Algo está dando errado, portanto, e não é só o acúmulo de lixo na praia.  

Editado pelo   Aef,   com informações da assessoria de imprensa do empreendimento Ilha de Porto Belo



A UNANIMIDADE CONVINCENTE DO TRF-4
Quinta-Feira, 25 de Janeiro de 2018

OPINIÃO DO ANÁLISE

A maioria dos observadores considerava provável a manutenção da condenação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), mas poucos apostavam na unanimidade da decisão. O resultado de 3 x 0 contra o recurso apresentado pela defesa, além de um efeito simbólico de peso na derrota, produz também uma consequência prática, que é a redução do número de recursos que poderão ser apresentados. Com isso, aumentam bastante as chances de impugnação da candidatura de Lula.

Quem assistiu à integra do julgamento no Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF-4), ficou com poucas dúvidas sobre a culpa de Lula no episódio do apartamento triplex do edifício Solaris da praia do Guarujá. Seria preciso, diante de todos os fatos, documentos e depoimentos relatados, um exercício de surrealismo exacerbado para acreditar que aquele imóvel não era destinado ao ex-presidente como pagamento de vantagens indevidas.

Seria preciso fechar os olhos às mais retumbantes evidências para engolir a história de que Lula e a então primeira-dama Marisa Letícia fizeram visita e aprovavam reformas na unidade por uma questão meramente circunstancial. Quem ainda tem alguma dúvida sobre a robustez das provas e evidências, procure os vídeos do julgamento na internet e ouça com atenção o voto de cada desembargador. A alegada falta de propriedade formal do referido imóvel, diante de tantas evidências, realmente soa apenas como um capricho de quem tomava cuidado para não ser pego com a "boca na botija". Pelo menos é isso que entenderam os desembargadores e quem acompanhou seu raciocinio.

Desperdício

A direção nacional do Partido dos Trabalhadores, infelizmente, perdeu mais uma chance de se conectar novamente com a parcela da sociedade que deixou de confiar no partido – a mesma parcela que havia sido conquistada em 2002, com a Carta aos Brasileiros, e que elegeu Lula depois de três tentativas frustradas. Em nota assinada pela presidente da legenda, Gleisi Hoffmann, o PT recorre novamente a ataques ao Judiciário, à retórica do golpe e ao clichê da Rede Globo como bode espiatório.  

“O resultado do julgamento do recurso da defesa de Lula, no TRF-4, com votos claramente combinados dos três desembargadores, configura uma farsa judicial. Confirma-se o engajamento político-partidário de setores do sistema judicial, orquestrado pela Rede Globo, com o objetivo de tirar Lula do processo eleitoral”, diz o documento em uma das partes. Em outra, afirma que “O plano dos golpistas esbarra na força política de Lula, que brota da alma do povo. Esbarra na consciência democrática da grande maioria da sociedade, que não aceita uma condenação sem crime e sem provas, não aceita a manipulação da Justiça com fins de perseguição política. Não vamos aceitar passivamente que a democracia e a vontade da maioria sejam mais uma vez desrespeitadas”.

Desconexão

São afirmações que mostram, sobretudo, uma grande desconexão com a realidade. Primeiro que, para quem defende a democracia, o respeito ao poder Judiciário é questão primordial. Não existe Estado democrático de Direito sem uma Justiça forte, soberana e independente. Sem demonstrar nenhum respeito a juízes e desembargadores, portanto, fica difícil acreditar que alguém preserve de fato a democracia. Já quando falam que “o plano dos golpistas esbarra na força política de Lula, que brota da alma do povo. Esbarra na consciência democrática da grande maioria da sociedade, que não aceita uma condenação sem crime e sem provas”, ignoram o fato de que Lula foi praticamente abandonado pelo povo, ou por boa parte dele. Quem foi às ruas para defendê-lo, sem ter ganho a passagem do ônibus, o lanche e, eventualmente, até uma gorjeta? Onde está a “grande maioria da sociedade, que não aceita uma condenação sem crime e sem provas”, se o que se vê é comemoração generalizada nas redes sociais e nas ruas sempre que o ex-presidente tropeça na Justiça?

São sintomas de quem não está percebendo a gravidade da situação e por isso pode acabar engolido por ela. Lembra até aquele cônjuge cujo par volta inexplicavelmente tarde todas as noites, exala perfume alheio e não tem mais interesse na relação. Para crer no adultério e na necessidade de separação, contudo, ele precisa ver a consumação do fato na cama ou na entrada do motel, senão continua acreditando que tudo possa ser só uma questão de trabalho em excesso. Além de inocência, é preciso muito esforço para enganar-se a si próprio e acreditar que o pior não está acontecendo.

Teoria

Por isso a estratégia do PT não funcionou e não vai funcionar, nem na Justiça nem na eleição de outubro. Para vencer, o partido precisa ir além dos cerca de 30% do eleitorado que se mantém fiel à legenda apesar de todos os fatos em evidência. Seria preciso reconquistar aqueles eleitores que até 2002 tinham medo do PT por achar que o partido transformaria o país em um feudo comunista se chegasse ao poder,mas que resolveu dar um voto de confiança a ele depois dos compromissos assumidos na Carta aos Brasileiros. Com esse discurso de quem perdeu o rumo da proa, no entanto, dificilmente vai reconquistar alguém.

Qualquer equação simples de Teoria dos Jogos mostrará isso aos petistas. Para manter a faixa do eleitorado fiel, que está com o PT na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, não seria preciso adotar o discurso inócuo de revanchismo que está sendo adotado. Este segmento de eleitores será do partido faça chuva ou faça sol. Já a parcela que poderia fazer diferença na balança só está sendo afugentada com a postura de enfrentamento adotada pela cúpula partidária. Não há absolutamente nenhuma vantagem, portanto, em manter a estratégia.

Chegou-se ao ponto, entretanto, que pode ter ficado tarde para mudar, pois outubro está logo ali e qualquer mudança, agora, pode parecer oportunismo. Ou seja, o PT meteu-se numa situação em que, se ficar, o bicho come, se correr o bicho pega.




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