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UMA GRANDE FESTA E UM GRANDE NEGÓCIO
Quinta-Feira, 16 de Novembro de 2017

Quando se diz que o poder público deveria ser gerido como uma empresa para obter melhores resultados, muita gente torce o nariz. Principalmente quem ainda acredita nas propriedades de um Estado gigante, onipresente e tutelador como fonte de benefícios para a sociedade. A despeito de todos os males que os modelos concentradores de organização estatal têm produzido no país ao longo das décadas, a crença em um governo pai de todas as bênçãos persiste em fatia significativa da população.

Os números, contudo, mostram que o paradigma privado de gestão, quando aplicado corretamente a esferas da administração pública, produz resultados bem mais consistentes do que o paradigma público. Nesta quinta-feira, por exemplo, o prefeito Napoleão Bernardes e o presidente do Parque Vila Germânica, Ricardo Stodieck, apresentaram os números da 34ª edição da Oktoberfest de Blumenau, maior evento de lazer do estado e um dos maiores do país – promovido integralmente pelo poder público, ao contrário de alguns dos principais concorrentes.

No balanço, um surpreendente avanço de 33% no superávit do evento, que consumiu R$ 9,1 milhões para ser realizado e gerou R$ 13,4 milhões em receitas com ingressos, comissões sobre venda, permissões de uso e patrocínios – outros R$ 450 mil foram arrecadados através de convênio com o governo do estado. Sobre este superávit total de R$ 4,2 milhões, do qual ainda serão descontados despesas administrativas como impostos e depreciação de patrimônio, por exemplo, a Vila Germânica consolidou uma margem operacional líquida de quase 32%. Ou seja, cerca de R$ 1,3 milhão foi o que a Oktoberfest efetivamente deu de lucro. Em relação a 2012, quando teve início a atual gestão do Parque Vila Germânica, a margem operacional da festa avançou seis vezes, indo de 5,4% para 31,6%.

– Foi um resultado de fazer inveja a empresas do setor privado, mostrando que o poder público sabe fazer gestão de qualidade quando busca este objetivo – destacou o prefeito.

Valor agregado

De fato é um resultado bastante satisfatório. Muitas empresas às vezes colhem resultados ruins por pura má gestão, sucumbindo administrativamente por não equacionar corretamente variáveis como despesa, receita, logística e material humano, entre outras. E não são raros os casos.

Quando se olha para a contabilidade da Oktoberfest, partindo do pressuposto de que são dados confiáveis, percebe-se que as receitas aumentaram numa proporção quase três vezes maior do que as despesas entre 2012 e 2017. Enquanto o gasto com a realização do evento subiu 34%, partindo de R$ 6,8 milhões para R$ 9,1 milhões neste período, o caixa obtido com ele foi de R$ 7,2 milhões a R$ 13,4 milhões, dilatando obesos 86%. Este é o primeiro item em qualquer cartilha de governança corporativa saudável: evoluir mais na receita do que nas despesa. Nesse quesito, portanto, a organização da Oktoberfest mereceu nota 10 com estrelinha.

Outro aspecto decisivo na saúde de qualquer organismo corporativo é o agregamento de valor. Nenhum agente de mercado hoje consegue avançar a níveis sólidos só com aumento de produção. Na era da Economia Criativa e da Indústria 4.0, é preciso agregar cada vez mais valor ao produto. Sem isso, não há aumento de produção que dê conta de gradar aos acionistas como eles desejam ser agradados. Elemento que na lógica da administração pública faz o mesmo sentido.

Voltando ao caso da Oktoberfest, o valor arrecadado com as cotas de patrocínio (valores que as empresas pagam para expor sua marca e/ou explorar seus serviços no evento) teve um salto vertiginoso de 118% em 2017, gerando R$ 1,6 milhão para o caixa da Vila Germânica – em 2016 foram R$ 740 mil. Um ganho de margem que não envolveu a venda de mais ingressos, a contratação de mais trabalhadores ou o aumento da planta industrial, apenas e tão somente a exploração de maior valor agregado ao produto. Mais um resultado de deixar caído o queixo de qualquer CEO da era digital.

– O patrocínio é uma fonte de receita de grande potencial para a festa, e uma grande oportunidade para o patrocinador, que agrega valor a sua marca vinculando ela ao evento – observou o presidente do Parque Vila Germânica, que pretende continuar avançando na exploração desta modalidade de faturamento.

Hibridismo corporativo

Por isso deve-se avaliar em profundidade os paradigmas de gestão que o país adota hoje, tanto na iniciativa privada quanto na administração pública. Ambos estão carentes de bons exemplos de governança respónsável e eficiente, voltada para o resultado efetivo e de longo prazo  aqui mesmo, em Blumenau, há empresas tradicionais sucumbindo à má gestão e dando adeus a um legado de pioneirismo do qual a cidade sempre se orgulhou. Se é possível criar modelos híbridos, portanto, aproveitando o que há de melhor em cada sistema administrativo e produzindo resultados melhores com isso (como tem feito a Vila Germânica com a Oktoberfest), não há porque não fazê-lo.

Mas aí você deve estar se perguntando: o que será feito com os mais de R$ 1 milhão que a Vila Germânica contabilizou de margem líquida com a Oktoberfest deste ano? 

De acordo com prefeito Napoleão Bernardes, os recursos serão investidos na realização de outros eventos promovidos pela Vila Germânica, alguns com acesso livre à população, como o Magia de Natal, o Réveillon, a Cãominhada e a Vila de Páscoa, entre outros. O parque Ramiro Ruediger, anexo à Vila Germânica e principal equipamento de lazer ao ar livre do município, também vai ser beneficiado, recendo R$ 120 mil para investir em melhorias como reforma da pista de skate,  instalação de uma slackline (esporte de equilíbrio sobre fita elástica) e colocação de novos bancos.

– É uma forma de oferecer lazer gratuito e de qualidade sem precisar de recursos públicos, cuja destinação tem uma série de outras prioridades – observou Napoleão.

Prioridades

Neste aspecto o chefe do Executivo blumenauense também tem razão. Em um país (e uma cidade, portanto) onde a educação, a saúde e a segurança pública ainda estão muito aquém do desejado e seguem como prioridade absoluta, fica muito difícil para o poder público tirar dinheiro do bolso para garantir o lazer que o cidadão merece. Podendo fazer isso com a realização de eventos e iniciativas auto-sustentáveis, portanto, dará um grande drible da dificuldade.

Os recursos obtidos com o azul financeiro da Oktoberfest também serão investidos na compra de seis imóveis localizados em áreas contíguas à Vila Germânica, já utilizados pela autarquia através de aluguel. As desapropriações já foram assinadas pelo prefeito e agora precisam ser aprovadas pela Câmara de Vereadores.

Desafio

Chegar ao topo, contudo, é muito mais fácil do que permanecer lá, como se sabe. Então, ao mesmo tempo em que a Vila Germânica foi muito bem sucedida até agora na construção destes resultados, precisará ser melhor ainda para mantê-los e continuar evoluindo. Neste contexto, agregar ainda mais valor ao evento vai ser o grande desafio, já que o aumento de escala, neste caso, é pouco viável – tarefa na qual a tecnologia, que já vem sendo grande aliada da Oktoberfest, terá papel ainda mais relevante.

Mas os benefícios e os impactos econômicos da segunda maior festa da tradição germânica no mundo ocidental justificam qualquer investimento que se faça em seu aprimoramento. Em publicação recente, o Análise em Foco destacou a extensão deste impacto, lembrado pelo prefeito nesta quinta-feira, durante a apresentação dos resultados da Oktoberfest:

– As pesquisas de satisfação feitas junto ao público da Oktoberfest mostram índices de satisfação superiores a 98% e constatam o desejo de quem visita a festa de voltar e conhecer outra regiões do estado.

Segurança e qualidade de vida

Mais uma vez ele acertou na ponderação. Não resta dúvida nenhuma sobre os impactos altamente positivos do maior evento do estado para a economia e a imagem de Santa Catarina. Principalmente em uma época em que as pessoas estão com cada vez mais medo de ir para os grandes centros urbanos do país, assolados por índices incontroláveis de violência e insegurança pública. Neste cenário, quando o sujeito descobre que pode fazer turismo em cidades como Blumenau e estados como Santa Catarina, que ainda ostentam níveis de segurança e qualidade de vida comparáveis aos do primeiro mundo, sente-se num verdadeiro oásis no deserto.

Meio ambiente

Algumas questões de natureza ambiental ligadas à realização da festa, no entanto, demandam atenção extra – como o não reaproveitamento dos copos descartáveis utilizados no evento, por exemplo. Uma questão que não depende só do poder público ou da Vila Germânica, pois envolve desenvolvimento e/ou obtenção de tecnologias ainda indisponíveis por aqui, mas que precisa entrar no radar das preocupações antes que comece a tirar parte do brilho da festa que hoje é orgulho não só de blumenauenses e catarinenses, mas também dos brasileiros, pela dimensão que tomou.




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