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PT BUSCA REPOSICIONAMENTO EM SANTA CATARINA
Terça-Feira, 21 de Novembro de 2017

O deputado federal Décio Lima, que governou Blumenau por dois mandatos, entre 1996 e 2004, assumiu a difícil missão de liderar o PT catarinense na tentativa de reagir e voltar a crescer. Tarefa que não vai ser nem um pouco fácil. Afinal, quando o partido direciona o discurso para a militância, com o objetivo de mantê-la motivada e aguerrida, acaba produzindo força de reação, em sentido contrário, em significativa parcela do eleitorado catarinense, que não se identifica mais com o discurso da legenda em função dos episódios recentes da política e da economia.

Na semana passada, durante evento em Florianópolis, os petistas reuniram-se em torno da elaboração de um projeto de gestão para apresentar na eleição do ano que vem em Santa Catarina. A iniciativa faz parte do programa de governo do PT nacional, entusiasmado pela posição do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva nas pesquisas eleitorais até o momento – é preciso esperar para ver se este desempenho se mantém após o início da campanha. Por um lado, o discurso de Décio Lima (presidente do partido e virtual candidato ao governo) mostrou certo arrefecimento de tensão, por outro reforçou algumas posturas já conhecidas e rejeitadas do partido.

 – Podemos afirmar hoje que temos um espaço extraordinariamente fraterno, de unidade e convergência de pensamentos plurais, que nós representamos. Eu nunca assisti dentro do PT um ambiente tão tranquilo e de encorajamento. O que revela uma sabedoria nossa no partido. Por isso, é um momento de adquirir musculatura para uma reação no estado, que nós podemos representar na construção da esperança de uma Santa Catarina melhor – disse Lima.

É uma afirmação light para os padrões de outrora, e reflete o que se tem observado na conduta de demais petistas em redutos eleitorais importantes do partido no estado – em Blumenau, por exemplo, parte das lideranças tem demonstrado postura bem mais sóbria em relação ao cenário político. Neste aspecto, tem-se a impressão de que o partido tem conseguido lançar um olhar mais crítico e menos apaixonado para a realidade, aceitando que uma parcela significativa da sociedade rejeita alguns dos métodos e princípios adotados pela legenda no passado.

Quando joga para a torcida, conduto, o líder dos petistas precisa assumir o ônus da ideologização daquilo que não é ideologizável

– Após o processo de impeachment da presidenta Dilma Rousseff se falou sobre o fim do Partido dos Trabalhadores. Hoje estamos aqui elaborando o programa de governo do partido para Santa Catarina, em um contexto, onde o ex-presidente Lula lidera as pesquisas eleitorais e num ambiente de perda de direitos com as reformas impostas pelo governo Temer – ponderou Décio Lima no evento da semana passaada.

Semiótica

Primeiro é preciso destacar que torcer pelo fim do PT é torcer contra a democracia brasileira, que precisa de diferentes contrapesos nas esferas de poder e representação política. A despeito de todos os seus erros (que infelizmente não são admitidos por suas principais lideranças), o Partido dos Trabalhadores ainda representa parcela significativa da sociedade e continuará representando por muito tempo, de forma que precisa ser respeitado, afinal o erros de alguns não podem recair sobre todos que compõem a legenda. O PT não foi o começo nem será o fim da corrupção e das mazelas administrativas do país. Foi e continuará sendo penas um vetor do aprofundamento ou da reversão destes anacronismos. Em seu primeiro teste contrinuiu mais para a primeira opção, infelizmente, que possa fazer diferente se tiver nova oportunidade.

O discurso partidário, contudo, ainda está longe de abrir novas portas para o PT. Quando fala em “reformas impostas pelo governo Temer”, recorre a um arquétipo de esquerda cujo encaixe na percepção da sociedade sobre o tema não é muito facilitado. Aquilo que o filósofo, linguista e estudioso Umberto Eco destacava em seus estudos sobre a semiótica, recorrentes em cursos de Comunicação. De acordo com ele, não adianta você levar uma mensagem a um receptor usando códigos de linguagem que não se encaixam em seu conjunto de predisposições conceituais e ideológicas. Trocando por miúdos, seria mais ou menos como tentar fazer a apologia da banana para quem só gosta de abacaxi e experimentou apenas frutas cítricas na vida. Por esta ótica, seria bem mais recomendável falar de laranja ou de limão do que de banana ou melancia na hora de fazer a mensagem ser aceita por esta pessoa.

Manifestação

Tome-se a reforma trabalhista, por exemplo, que, mesmo com resistências localizadas, não encontrou nenhum grande obstáculo para ser aprovada no Congresso. Ou alguém ouviu falar de alguma grande manifestação pública pressionando os parlamentares a não aprová-la? Os principais sindicatos do país, a propósito, participaram das conversas e chancelaram a proposta. Por uma razão bem simples: a reforma, que não é do presidente Temer, mas da sociedade (ele apenas teve o oportunismo necessário para pegar a carona e posar de reformista), precisa ser feita para o país deixar o século 20 e chegar ao século 21 em termos de produtividade – outras reformas são necessárias, aliás, para tornar o Brasil mais produtivo e competitivo.

No caso da reforma da Previdência, ainda há resistência maior por pura falta clareza na hora de se explicar a situação e de legitimidade do governo na hora de encaminhar a proposta no Congresso, mas, na média das opiniões, o brasileiro sabe que o país irá quebrar se não equacionar a questão previdenciária.

Outra variável a jogar contra o discurso petista é o consenso do partido em torno da candidatura de Lula. Se para algumas pessoas o ex-presidente ainda é a figura idônea e mitológica dos tempos em que chegou ao poder, para outras esta indumentária já não lhe cai bem de forma alguma, o que certamente afugenta muitos eleitores da legenda, dos antigos aos novos. Mas, mesmo supondo a real possibilidade de ele vencer novamente, fica igualmente difícil imaginar que este seja o melhor para o Partido dos Trabalhadores voltar a ser grande. Afinal, situação do país encontra-se de tal forma que será preciso uma gestão de medidas impopulares para devolvê-lo  aos trilhos, e, aí, tanto Lula quanto o PT poderiam torrar o que lhes resta de capital político em caso de volta ao poder.

Se isso acontecer o país para novamente, porque não consegue avançar na transformação, ficando mais ou menos como estava no segundo mandato de Dilma Rousseff e parece começar a ficar agora no de Michel Temer.

Equação

Equacionar todas estas variáveis repletas de dialéticas cruéis, portanto, vai ser missão para lá de difícil para quem assumir o comando das linhas de frente do PT. Para o presidente do partido em Santa Catarina, então, vai ser tarefa ainda mais exigente, considerando os elevados níveis de rejeição que Lula e o partido encaram no estado. Pela relevância da sigla para a democracia brasileira, contudo, resta esperar que possa encontrar o melhor caminho. 

Reeditar velhas fórmulas, no entanto, como está sendo feito, pode não ser a melhor alternativa. Observação que vale para diversos outros partidos em crise de credibilidade, aliás.

Pensem nisso, senhores, para o bem de vocês e do Brasil.




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